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"A
Montanha é a melhor escola e zelar por
ela, é obrigação para com
nossa sobrevivência e de toda a humanidade"
(Erwin Groger).
Sabe-se
que a prática do montanhismo sempre gerou
e gerará impacto sobre a vegetação
nas mais diferentes escalas. Infelizmente nos
tempos modernos o uso sem critérios
de nossas montanhas está sendo incentivado
de uma forma muito errônea para a grande
massa, com pessoas despreparadas levando grandes
grupos para ambientes naturais, dando cursos
e até mesmo fazendo publicações
irresponsáveis pela internet em sites
especializados.
No
Brasil e especialmente aqui no Paraná essa
vegetação tem sofrido grande impacto
advindo de nossas atividades nos frágeis
ambientes das montanhas. Cabe, portanto, a nós
montanhistas minimiza-lo e recuperarmos estes
danos. São Luiz do Purunã e Morro
do Anhangava são exemplos onde já
se pode facilmente visualizar a amplitude desta
agressão nas bases e nos trajetos das inúmeras
vias de escalada, além do lixo deixado
por escaladores nas bases de vias.
Considerando
que a escalada se tornou nos últimos anos
bastante popular, podendo ameaçar inclusive
a harmonia ambiental, cabe a nós, agora,
ajudarmos a decidir caminhos para auto-regulamentar
o uso das paredes rochosas de forma a evitar que
o dano torne-se abusivo e irreversível
(GT de Mínimo Impacto em Paredes
FEMERJ, 2002).
Esperando
a colaboração de todos os montanhistas
que utilizam as áreas naturais do Estado
e seguindo a linha dos importantes trabalhos que
foram e vem sendo feitos por minorias a fim de
recuperar os danos de todos os usuários
de nossas paredes e montanhas, a Federação
Paranaense de Montanhismo continuará juntamente
com seus associados a promover encontros que visem
algo mais, além da simples utilização
predatória destas áreas.
Convido-lhes
a saber um pouco mais sobre a vegetação
das nossas montanhas lendo um excelente texto
organizado pela bióloga e escaladora Kátia
Torres Ribeiro.
Boas
escaladas...
Alexandre
Lorenzetto Departamento Ambiental FEPAM
Ei
escalador! Espere aí! Isso aí na parede
não é mato não!!!!
Algumas
características de plantas sobre rocha
As
rochas estão por todo lugar, e hoje são
um dos ambientes terrestres mais bem preservados
de todo o planeta, sendo assim importantes refúgios
para muitas plantas sensíveis ao fogo,
ao gado e a várias outras atividades humanas.
Na África do Sul, por exemplo, país
quase todo varrido por incêndios, as plantas
sensíveis ao fogo estão quase sempre
confinadas nas paredes rochosas; na China acontece
o mesmo, seu território foi praticamente
todo convertido em áreas de agricultura,
e somente as rochas e as montanhas elevadas abrigam
uma vegetação original, mesmo assim
bastante atingida pelos caçadores de bonsais [1].
Em
diversos estados do Brasil, principalmente no
nordeste, toda a área plana foi convertida
também em pastos ou plantações,
e muitas vertentes de montanhas são alcançadas
pelas cabras e pelo fogo, de modo que a escassa
vegetação original fica quase sempre
restrita às paredes rochosas de difícil
acesso[2].
Em um levantamento desse tipo de vegetação
feito no maciço do Itatiaia, foram encontradas
114 espécies em apenas 800m2, que representam
cerca de 25% do total de espécies do planalto[3],[4].
No incêndio de 2001, as manchas de vegetação
sobre rocha não queimaram, o que mostra
mais uma vez a importância das rochas como
refúgio para muitas plantas.
A
divulgação e crescente popularização
dos esportes de aventura e ao ar livre vêm
ameaçando as áreas naturais em geral,
e também a vegetação sobre
rocha, que tem aí seu maior fator de impacto[1],[5],
pelo menos nas zonas temperadas. No Brasil, é
freqüente também a retirada de plantas
para o comércio ilegal, e são muitos
os relatos de incêndios propositais nas
paredes rochosas no nordeste e no Espírito
Santo[6],
bem de acordo com a piromania nacional.
O
que as plantas sobre rocha têm de especial?
As plantas encontradas nos paredões podem
ser rupícolas, quando crescem diretamente
sobre a rocha, ou saxícolas, quando se
localizam em pequenos platôs ou fendas com
solo. Nessas situações, a água
que chega escoa rapidamente e os nutrientes são
escassos. Por isso, as plantas crescem bem devagar,
e muitas têm adaptações especiais
para lidar com a escassez de água, como
é o caso dos cactos e bromélias
formadoras de tanques, que armazenam água,
ou das orquídeas e bromélias do
gênero Tillandsia, que conseguem captar
rapidamente a umidade das nuvens, ou ainda as
velózias (canelas-de-ema) e capins-ressurreição,
que toleram a dessecação violenta
das folhas com posterior re-hidratação
das mesmas folhas. Algumas plantas são
tão especializadas neste ambiente limitante
que continuam crescendo devagar, mesmo se adubadas
e irrigadas1. A bromélia Vriesea goniorachis,
aquela espécie de folhas pontudas, comum
nas faces norte dos morros do Rio de Janeiro,
faz parte de um dos grupos mais especializados
no hábito rupícola, ainda muito
pouco estudado taxonomicamente (no que diz respeito
à distinção entre as espécies
e seus nomes), mas se sabe que cresce de forma
extremamente lenta e resiste à adubação
também[7].
Não
é fácil se fixar na rocha. Imaginem
quantas sementes se perdem por secura ou enxurrada
para que uma se fixe e, finalmente, cresça.
Basta observar uma via inacabada na face S do
Pão de Açúcar, o Paredão
Universal, para constatá-lo: ela começou
a ser conquistada na década de 60, mas
depois foi abandonada e até hoje não
apresenta sinal claro de recuperação
da vegetação luxuriante que cobre
esta face úmida da montanha.
É
muito difícil para uma semente conseguir
viajar de uma montanha para outra e, além
disso, chegar a germinar. Talvez por isso haja
tantas plantas que são específicas
de uma ou de poucas montanhas adjacentes. Plantas
em diferentes montanhas, quando não trocam
sementes ou pólens, vão se tornando
cada vez mais diferentes até que formam
espécies distintas, e assim surgem os muitos
casos de endemismo restrito (espécies só
encontradas em uma única montanha).
Depois
que algumas espécies mais tolerantes se
fixam, começa a haver a interceptação
de partículas de rocha, de húmus
e detritos de plantas, e assim surge um protossolo,
em que vão crescer outras plantas, como
algumas gesneriáceas, bromélias
e aráceas. Em geral, há primeiro
a entrada de liquens e musgos, que crescem extremamente
devagar (alguns liquens crescem apenas 1mm por
ano!). Essas plantinhas minúsculas vão
decompondo a rocha química e fisicamente,
e vão juntando um pouco de solo embaixo
de si, e assim também ajudam as sementes
das outras espécies a se fixar. Estas então
germinam e começam a crescer de forma bastante
lenta também. Algumas delas crescem prostradas
na rocha, e formam algo parecido com um tapete,
que ajudam ainda mais a fixar partículas
de solo, e mais e mais espécies conseguem
se estabelecer ali. No entanto, muitas vezes esses
extensos tapetes estão precariamente presos
na rocha, quase que apenas aderidos, e sua retirada,
bastante fácil, interrompe um processo
de décadas ou mesmo de séculos de
duração.
Em
resumo, podemos dizer que essas espécies
crescem devagar, têm dificuldade de estabelecimento
(germinação + fixação)
e, portanto, ``investem'' na longevidade. Estas
plantas são, no mais das vezes, muito velhas!
Ruy Alves[8],
pesquisador do Museu Nacional do Rio de Janeiro,
estimou a idade das canelas-de-ema do Pão
de Açúcar, aquelas pequenas plantas
de flores brancas (Vellozia candida) no caminho
do Costão e Paredão São Bento,
em cerca de 150 anos, e em cerca de 500 anos as
canelas-de-ema gigantes da Serra do Cipó.
Larson e colaboradores1, que são biólogos
e também escaladores, do Canadá,
mostram fotos de árvores encravadas em
fendas das falésias de Niágara,
totalmente depredadas por rapéis feitos
em suas raízes e caules (além de
podas de galhos para dar passagem cômoda),
sendo que algumas tinham 1700 anos de idade e
eram pequeninas como arbustos! Casos similares
de árvores antigas podem ser possivelmente
encontrados nas grotas e fendas das montanhas
altas do Brasil, mas ainda não se têm
dados sobre as mesmas.
Por
que as montanhas têm plantas diferentes
umas das outras?
Muitos fatores determinam quais plantas podem
ser encontradas em uma certa montanha. Além
do acaso e das chances das sementes terem chegado
lá, as plantas são afetadas pelo
regime de luz, pela rugosidade da rocha (tamanho
dos cristais da rocha e forma de fragmentação),
presença de fendas e outras concavidades,
composição química da rocha
e outros detalhes do relevo, além da presença
de dispersores e polinizadores. Plantas muito
diferentes são encontradas sobre quartzito,
granito ou arenito, por exemplo[9].
Também
é bastante evidente o papel da insolação,
da declividade e da umidade. No hemisfério
sul, as paredes voltadas para o norte são
as que recebem mais horas de sol e, nos trópicos,
menos espécies conseguem crescer nestas
faces, por conta do calor e da falta d´água.
O contrário acontece nas regiões
frias, onde mais espécies são encontradas
nas faces que recebem mais sol. A declividade
também define bastante quais espécies
podem ser encontradas. Algumas delas só
conseguem crescer em paredes verticais, enquanto
outras dependem de um pouco de terra, e são
mais comuns nas paredes menos inclinadas (as grandes
bromélias, muitas canelas-de-ema). A umidade
depende dos ventos, da insolação
e da declividade da rocha, principalmente. Às
vezes podem ser encontradas grandes diferenças
em umidade em paredes próximas, como é
o caso dos morros ao longo do litoral do Rio de
Janeiro. As faces voltadas para o sul são
geralmente atingidas por ventos vindos do mar,
úmidos, e por conta disso, a vegetação
nessas faces costuma ser luxuriante, com muitas
espécies e grande densidade. Das 12 espécies
de orquídeas existentes nas rochas do Pão
de Açúcar, apenas duas ocorrem na
vertente norte, enquanto as outras 10 habitam
apenas as vertentes voltadas para o quadrante
sul[10].
A
vegetação sobre rocha do sudeste
do Brasil e de outros países tropicais
da América do Sul é extremamente
diversa, e rica em endemismos[2].
Embora as rochas do oeste da África sejam
por vezes muito similares às do Brasil,
lá as mesmas espécies tendem a ser
encontradas em longas distâncias, e muitos
afloramentos rochosos compartilham aproximadamente
os mesmos conjuntos de espécies. No Brasil,
cada montanha ou conjunto de montanhas tem suas
espécies particulares, principalmente de
bromélias, orquídeas, samambaias
e canelas-de-ema.
A
fragilidade da vegetação
Essa vegetação sobreviveu relativamente
bem até hoje, mas na verdade é extremamente
frágil. A fragilidade tem dois componentes
importantes: a facilidade para remover a vegetação
(resistência) e o tempo que ela leva para
se recuperar (resiliência)[11].
Para retirar a vegetação sobre rocha
não são necessárias nem grandes
ferramentas, nem tratores, nem fogo, como em uma
floresta. Basta a habilidade de subir (ou descer...)
na rocha e a força de algumas pessoas,
ou mesmo a passagem. A divulgação
e crescente popularização dos esportes
de aventura e ao ar livre vêm ameaçando
as áreas naturais em geral, e também
a vegetação sobre rocha, que tem
aí seu maior fator de impacto[1],[5],
pelo menos nas zonas temperadas. No Brasil, é
freqüente também a retirada de plantas
para o comércio ilegal, e são muitos
os relatos de incêndios propositais nas
paredes rochosas no nordeste e no Espírito
Santo[6],
bem de acordo com a piromania nacional.
Referências
[1]
Larson, D.W., Matthes, U. & Kelly, P.E. (2000)
Cliff Ecology. Pattern and Process in Cliff Ecosystems.
Cambridge Studies in Ecology. Cambridge University
Press, Cambridge. 340p.
[2]
Porembski, S., Martinelli, G., Ohlemuller, R.
e Barthlott, W. (1998) Diversity and ecology of
saxicolousvegetation mats on inselbergs in brazilian
Atlantic forest. Diversity and Distributions,
4, 107-119.
[3]
Ribeiro, K.T., Medina. B.O. e Scarano, F.R. (2001)
Rupicolous vegetation of the Itatiaia Plateau:
Floristic composition, endemism and its relationship
with the Atlantic Forest, Journal of Biogeography.
[4]
Martinelli, G. & Vaz, M.S. (1988) Padrões
fitogeográficos em Bromeliaceae dos campos
de altitude da floresta pluvial costeira do Brasil,
no estado do Rio de Janeiro. Rodriguésia,
64/66, 3-10.
[5]
Nuzzo, V.A. (1996) Structure of cliff vegetation
on exposed cliffs and the effect of rock climbing.
Canadian Journal of Botany, 74, 607-617.
[6]
Relatos de André Ilha, Kate Benedict e
Pedro Nahoum
[7]
Informação de Pedro Nahoum.
[8]
Alves, R.J.V. (1994) Morphological age determination
and longevity in some Vellozia populations in
Brazil. Folia Geobotanica Phytotaxa Praha, 29,
55-59.
[9]
Porembski, S., Barthlott, W., Dörrstock,
S. & Biedinger, N. (1994) Vegetation of rock
outcrops in Guinea: granite inselbergs, sandstone
table mountains and ferricretes - remarks on species
numbers and endemism. Flora, 189, 315-326.
[10]
Miranda, F.E.L. e Oliveira, R.O. (1983). Orquídeas
rupícolas do Morro do Pão de Açúcar,
Rio de Janeiro. Atas da Sociedade Botânica
do Brasil, 18, 99-106.
[11]
Begon, M., Harper, J.L. e Townsend, C.R. (1996)
Ecology, 3rd edn, Blackwell Science Ltd, Oxford.
[12]
Ursic, K., Kenkel, N.C. e Larson, D.W. (1997)
Revegetation dynamics of cliff faces in abandoned
limestone quarries. Journal of Applied Ecology,
34, 289-303.
[13]
Carauta, J.P.P. e Oliveira, R.R. (1984) Plantas
vasculares dos morros da Urca, Pão de Açúcar
e Cara de Cão. Rodriguésia, 36,
13-24.
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